Por Natasha Franco

De acordo com pesquisas realizadas na área da Neuroeducação, é possível verificar uma possível perda no desenvolvimento humano das crianças, em função do fechamento das escolas e creches por um período tão prolongado.

Sobre este assunto, conversamos com o Dr. Daniel Becker, pediatra, sanitarista, docente do Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ e fundador do Centro de Promoção da Saúde.

Na entrevista a seguir, ele explica porque essa perda ocorre e como se reflete na saúde física e mental das crianças.

Vale a pena conferir. Boa leitura!

 

 

Em que nível a perda do ambiente escolar pode comprometer a saúde das crianças?

A escola faz parte de uma perda global que as crianças tiveram neste ano. Está privação gerou nelas o que chamamos de estresse tóxico. Há três diferentes tipos de estresse na infância: o leve, o prolongado e o tóxico.

O estresse leve é considerado bom para o desenvolvimento das crianças, são os pequenos desafios. O dente que dói porque está nascendo, a gripe, a febre, o castigos dos pais ou uma prova em que foi mal são exemplos de estresses leves, os quais são capazes de trazer benefícios pois preparam as crianças para a vida.

Já o estresse prolongado pode ser visto, por exemplo, quando a criança passa por uma operação ou vivencia uma doença dos pais, que depois melhoram. São estresses mais profundos do que os leves, mas conseguem ser reparados ao longo do tempo, por meio do afeto e da volta da situação à normalidade.

No entanto, para o estresse tóxico não há reparação por ser muito intenso. Por exemplo, o abuso, a violência, os maus tratos, a fome, o conflito permanente em casa e a negligência do abandono. Circunstâncias que muitas delas vivenciaram e sofreram durante esta pandemia.

Como o estresse tóxico se apresenta nas crianças? Quais são os sintamos?

Percebemos alterações somáticas com manifestações de sintomas físicos e muitas alterações psicossomáticas, as quais provocaram diarreias, dores abdominais, cefaleias, constipações, tics, tosses inexistentes, bruxismos, pesadelos, insônia, falta de apetite, compulsividade, birras, carência e agressividade, por exemplo.

A grande realidade é que as crianças, por meio destes sintomas, estão expressando suas angústias e a ansiedade que viveram em função deste universo estressante.

É possível dimensionar os impactos da pandemia nessa geração?

Em vista deste cenário, as crianças estão sofrendo profundas alterações em seus cérebros. Não somente no âmbito emocional, mas em sua própria anatomia, o que certamente vai refletir no desenvolvimento delas.

São perdas que se refletem na infância, na adolescência e também na vida adulta, chamadas habilidades para a vida. As crianças que sofreram ou se encontram com estresse tóxico estão pagando um preço que infelizmente se estenderá até o futuro.

Escolas fechadas podem influenciar na perda de desenvolvimento das crianças?

Evidentemente, a curto e a longo prazo, a impossibilidade de vivenciar o ambiente escolar por tanto tempo, vai causar nas crianças e jovens a perda do desenvolvimento da proficiência e também de importantes habilidades e competências sociemocionais. Entre elas, a produtividade, empregabilidade, cidadania, inteligência emocional, capacidade de viver em coletividade e o pensamento crítico.

Como é sabido a escolaridade impacta até mesmo na expectativa de vida de uma pessoa. Quanto menor a escolaridade, menor é a expectativa de vida. Um recente estudo americano estimou em 5 milhões de anos de vida perdidos, devido o fechamento das escolas nos Estados Unidos. Ou seja, seria melhor ter mantido as escolas abertas porque a perda de vida foi muito maior com as escolas fechadas.

Porque o senhor considera a escola um ambiente saudável para as crianças, mesmo com a possibilidade de uma segunda onda?

As escolas particulares estão seguindo todos os protocolos das secretarias de saúde e vigilância sanitária. As escolas públicas precisam de investimentos para se tornarem, igualmente, lugares seguros para alunos, professores e funcionários. Isso é fundamental.

Além disso, as crianças vivenciaram o confinamento muitas vezes com pais estressados por diferentes motivos, como devido ao isolamento social, a conflitos em casa, a inúmeras tarefas no lar, o receio de perder o emprego, de contrair a doença e a própria morte de amigos e familiares. Ou seja, as crianças ficaram confinadas e, ainda, dentro de um ambiente muito tenso.

O único aspecto positivo foi o reencontro da convivência entre pais e filhos, que estava abandonada por muitas famílias. No entanto, a que preço? Mediante a muito estresse, devido à essa grande sobrecarga.

As crianças precisam muito da escola, em todos os sentidos. A escola não é somente um lugar de aprendizagem formal. No caso da Educação Infantil em especial, representa um espaço de socialização, de inter-relação, de relação com outro adulto cuidador – o que é tão importante na vida da criança. É um lugar de alimentação, de brincadeiras, de desenvolvimento de habilidades de comunicação, de curiosidades, de descobertas e iniciativas. Ou seja, de múltiplas aprendizagens.

Ao longo da pandemia, todos nós aprendemos que, seguindo todos os protocolos da vigilância sanitária com responsabilidade e sem aglomeração, é possível sair de casa e manter as escolas abertas, o que é fundamental para a saúde física e mental das crianças.

*Dr. Daniel Becker é também palestrante e escreve nas redes sociais com o perfil @pediatriaintegralbr.