Devido à pandemia e ao isolamento social, o Brasil foi o país que permaneceu durante maior período de tempo com as escolas fechadas, o que trouxe muitos danos ao desenvolvimento e saúde das crianças. Conversamos sobre a necessidade e a importância de manter as instituições de ensino abertas, com o vice-presidente da ASBREI, Frederico Venturini.
Na entrevista abaixo, ele faz um comparativo a respeito do assunto com outros países e fala sobre a importância de aprender com as experiências daqueles que estão vivenciando a segunda onda. Confira a seguir.
Em relação ao tempo de fechamento das instituições de ensino, poderia citar exemplos de outros lugares do mundo, na época em que sofreram o impacto do 1º lockdown, para efeito de comparação?
Em vários países da Europa, as escolas e creches foram liberadas antes de outras atividades, como a reabertura docomércio de rua e shoppings, por exemplo. Nos países pertencentes a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico as escolas permaneceram fechadas por 98 dias em média. Na da França, foram 56 dias e na Alemanha 68. No Brasil, ficamos com a escolas fechadas por mais de 200 dias. No país, há 2 Estados sem previsão de reabertura – Amapá e Bahia – e 4 Estados em que o retorno ainda ocorre de forma gradual – Alagoas, Paraná, Paraíba e Roraima. Devido a Estados e Municípios deterem a autonomia na decisão de reabertura, há centenas de cidades com instituições de ensino ainda fechadas e sem previsão de volta das atividades presenciais.
Quais foram as decisões tomadas pelos governos dos países desenvolvidos, em relação à Educação, durante o pico da pandemia? A postura dos líderes governamentais aqui no Brasil foi diferente? Por quê?
Nos países desenvolvidos houve prioridade na reabertura das escolas, foi um consenso entre as autoridades e os educadores. No Brasil, a postura dos governantes reflete o retrato de uma sociedade em que a Educação não é prioridade. Foi possível verificar bares, restaurantes, shoppings e parquinhos infantis lotados, enquanto as escolas permaneciam fechadas. Não por menos, os resultados de alunos brasileiros em exames internacionais de Educação, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), são vergonhosos.
Representantes de diferentes sindicatos de professoresrealizaram uma incoerente “greve pela vida”, como se o risco de contágio estivesse limitado ao espaço escolar. Em suma, escolas fechadas não diminuem o número de casos e escolas abertas não aumentam este número.
É um direito constitucional das crianças e adolescentes estarem dentro das escolas, negá-las este direito fundamental é crime. Ademais, as associações e os sindicatos de escolas particulares de todo o Brasil discutiram exaustivamente sobre os protocolos sanitários com as Secretarias de Educação. As escolas privadas que retornaram, investiram em muitos recursos para a implementação dos protocolos sanitários, tornando o ambiente escolar controlado e minimizando riscos de contágio.
Países europeus estão vivenciando a 2ª onda. Como estão sendo as decisões em relação ao fechamento das escolas e creches por lá neste período, após a vivência da 1ª onda? Por que estão agindo desta forma?
As decisões devem seguir a Ciência e o que ela nos mostra até o momento sobre o vírus. Constatou-se que crianças e adolescentes se infectam muito menos do que os adultos e representam apenas 0,6% dos óbitos.
Há países, como a França, que fizeram uma análise do que foi feito de certo e errado no primeiro lockdown. Foi constatado, portanto, que o fechamento das escolas foi um grande erro. As crianças desenvolveram síndromes de ansiedade e perdas cognitivas durante o confinamento. E ainda, os pais não tinham onde deixar seus filhos quando saíam para trabalhar. Nos países onde ocorre o segundo lockdown, as escolas estão abertas e alguns setores da economia permanecem fechados.
Os números de infectados estão voltando a crescer no Brasil. Qual é a sua opinião sobre o fechamento de escolas e creches?
As decisões precisam estar baseadas na Ciência, que já constatou que crianças não são vetores de transmissão. As escolas e creches devem permanecer abertas por diversos motivos: a Educação é um direito constitucional das crianças, que estarão muito mais seguras nos ambientes controlados das escolas do que nas ruas. O aumento da violência doméstica contra as crianças também foi uma das tragédias do confinamento, bem como o aumento da desigualdade social – famílias mais vulneráveis não tem acesso à tecnologia nem podem dar soluções como contratação de “explicadoras” e babás.
As perdas cognitivas e demais danos psicológicos serão infelizmente sentidos no futuro. Fico surpreso com a passividade da sociedade em aceitar estas medidas tão prejudiciais à nossa juventude. Escola é um direito fundamental e deve permanecer aberta, evidentemente, respeitando todas as medidas de proteção e segurança sanitária.